Voluntários de 1932: o Brasil tem seus heróis.
Desde criança observava meio atônito algumas lembranças da experiência de meu pai na Revolução de 1932, um cantil de alumínio meio amassado de um lado, um gorro de pano amarelo afunilado, um “soco inglês” ( armação de ferro a ser usada nas mãos) e uma arma semi-automática que meu pai sabiamente guardava em uma gaveta bem trancada. Logo acima um pequeno quadro que destacava o chamado para a Revolução Constitucionalista de 1932. Nunca pude compreender perfeitamente o significado destas coisas nem mesmo a passagem de 1932. Somente após vários anos, após haver concluído o mestrado, meu interesse pela história foi aguçado de forma súbita e passei a buscar o porquê de tudo que me cercava e , inclusive, da Revolução de 1932. Hoje compreendo quando vejo o grande destaque dado a esse feito, materializado no Obelisco,um monumento destacado no Ibirapuera, onde repousam vários combatentes.
Ao pesquisar hoje sobre esse fato marcante da formação republicana sou informado de que é por alguns reputado como um dos atos cívicos mais representativos da história do povo paulista, mais ainda, do Brasil, porque, embora derrotados, seu objetivo foi alguns anos depois alcançado, uma nova constituição foi dada ao povo brasileiro.
O que me surpreende, porém, é o caráter patriótico do movimento, pois esses jovens voluntariamente colocaram suas vidas em risco pela nação, reconhecidamente um sentimento puro, bravo e patriótico, raro entre os brasileiros na atualidade. O Brasil é um país incomum, abençoado por recursos naturais e poucas intempéries; poucos brasileiros, por esse e outros motivos, tiveram oportunidade de desenvolver laços mais profundos de amor à terra e aos melhores valores do homem, diferentemente dos povos mais sofridos (e por isso mais patriotas), Não foi assim com os “heróis de 1932” . O conflito durou cerca de três meses, mas a luta foi sangrenta, pois ceifou em torno de 900-1000 vidas, segundo as estatísticas oficiais, mais do dobro dos igualmente valentes ‘pracinhas” brasileiros que participaram da II Grande Guerra de 1939-1945.
De meu pai herdei não riquezas, mas um caráter reto. Presenciei mais de uma vez ele optar por perder incertas amizades, para manter os melhores valores; minha mãe já falecida me reportou outras três ocasiões em que ele cortava relacionamentos pelo que considerava reto e ético. Tesoureiro municipal, dele sempre ouvia “ estou em um rio e não posso beber água”. Até um conhecido ex-prefeito de São Pedro narrou um fato em seu livro, meu pai decidiu ficar ao seu lado e defende-lo, após ser ameaçado por uma autoridade local, pois a ele devia submissão e respeito. Ele era honrado e leal.
O que mais me surpreende nesses dias, ao ler e reler os jornais, é ver tanta escassez dos melhores valores, tanta falta de amor cívico, tanta desrespeito á ética e ao próximo, tanta falta de compostura por poderosos empresários e políticos nacionais.
Apesar de tudo que vemos e ouvimos há esperança e, mesmo que o amigo leitor não seja cristão, causa que eu já abracei, posso dizer que o Brasil tem seus heróis sim, a exemplos dos voluntários de 1932, cujo dia comemoraremos no próximo 09 de Julho.
João Francisco de Aguiar, economista, Dr. em administração de empresas, filho de Sebastião de Azevedo Aguiar ( “ Zito Aguiar”), do Batalhão de Piracicaba em 1932.