domingo, 14 de agosto de 2011

O caráter dos pais e a ética dos filhos

O caráter dos Pais e a ética dos filhos

Nenhum ser humano pode de “boca cheia” afirmar que é 100% ético e eu me enquadro nesta máxima, por outro lado procuro ser ético sempre que posso e em tudo o que fiz e faço. É difícil conviver com atitudes que me condenam. Gostaria (14/08/2011) de prestar uma homenagem ao “ Dia dos Pais”, relatando fatos da vida de meu pai que tem sido um referencial para minha vida (e para meus irmãos). Pena que não tive oportunidade de conhecê-la em toda sua extensão, mas tão somente recortes. Isso porque, ao nascer, meu pai, Sebastião de Azevedo Aguiar ( “ Zito Aguiar”), já estava na casa dos 40 e poucos anos.
Meu pai , como muitos já sabem, nasceu em São Pedro, foi voluntário na Revolução de 1932 o que muito me honra .Esse movimento de alto civismo já seria por si uma amostra de inestimável valor. Ao voltar a Piracicaba, de cuja cidade partiu o batalhão onde se alistou (600 ao todo desta cidade), buscou trabalho na área administrativa do engenho central, mais tarde voltou a São Pedro onde ocupou por muitos anos o cargo de tesoureiro na Prefeitura Municipal . Na Prefeitura de São Pedro ele teve a honra de ocupar por alguns dias a posição de Prefeito, o que lhe deu uma elevada distinção na cidade e hoje sua foto ocupa um lugar na “ Galeria dos Prefeitos” e é visível no site desta instituição. Por isso ganhou até o nome em uma rua da cidade. Emociono-me cada vez que abro esta página, quase não posso conter as lágrimas ao ver sua foto. Voltando ao tema, um fato que até hoje me intriga é o porque desta característica do meu pai, a busca pela ética . Só pode ser influência do seu pai, meu avô, Francisco Mendes de Aguiar . Vamos aos fatos sobre meu pai, alguns até pitorescos, fatos esses que venho colecionando e que mostram seu caráter. Procurarei narrá-los em ordem cronológica e dei um “titulo” a cada um deles.
Fato 1 “ A leitoa cevada”: minha mãe me dizia que certa vez um ‘amigo” adentrou nossa casa e desejou compartilhar sua alegria porque sua filha havia passado em um concurso público para professora mo município e ambos regozijaram-se. Em seguida esse amigo dizia ao meu pai que estava muito preocupado porque sua filha estava grávida e havia obtido a 11ª colocação o que a colocaria no “ Alto da Serra de São Pedro”, podendo, em virtude da má conservação da estrada e das suas curvas fechadas, até mesmo perder o bebê, transmitindo esse peso ao meu pai. A conversa ia bem quando este amigo disse ao meu pai : “ Zito, gostaria de dar-lhe de presente uma bela “leitoa cevada”. Meu pai de pronto muito agradeceu, ao que seu “amigo” disparou: “ Zito, com base na nossa amizade, você bem que poderia ajeitá-la em 10 lugar na sua lista, já que eu soube que a tal lista está com você e ninguém vai saber não é ? Meu pai ficou profundamente irritado, não hesitou, cortou a amizade e colocou o tal sujeito para fora de casa rompendo imediatamente a sua amizade.Ele não aturava esse tipo de coisa.
Fato 2: “ O rapaz insolente”: talvez com menos de 10 anos de idade, um dia tomava o ônibus piracicabano com meu pai e sentávamos do lado esquerdo, uns três bancos atrás do motorista. De repente meu pai irrita-se com algo à frente, sai do banco e fala ao rapaz que molestava a moça: “ Oh Fulano, agora o negócio é comigo, saia já desse ônibus”. A moça meio encabulada disse “ Não se preocupe senhor, tudo bem... “. Meu pai disse” Nada disso e dirigindo-se ao motorista ( conhecido) pediu para ele parar o ônibus, ao que ele prontamente atendeu, abrindo a porta. Meu pai fez uma “cara de mau e com fúria ( ele ficava muito vermelho quando bravo): “ Saia já desse ônibus”. Completamente abobalhado o “garanhão” desceu as escadas e olhou e virou esperando meu pai para a discussão ou briga, sabe Deus o que. Meu pai disse ao motorista. “ Fecha a porta e toca em frente”. O rapaz ficou na saída de São Pedro ( naquele ponto que fica antes do portal da cidade), sem entender o que se passava. Que cena !!!
Fato 3: “ O rio de águas amargas”: em casa minha mãe era professora do curso primário, meu pai tesoureiro da prefeitura. O salário de ambos era razoável mas o pagamento de uma hipoteca da casa onde vivíamos deixava pouco para sobras e não raras vezes eu ouvia do meu pai “ estou em um rio e não posso beber água”, isso porque ele precisava de dinheiro, mas não ousava retirar nem um centavo do caixa da prefeitura onde servia. Somente anos depois pude lembrar-me disso e entender melhor quando algo semelhante comigo ocorreu. Era Gerente de investimentos do Banco de Tokyo, por ordem da Diretoria estava vendendo debêntures de estatais e o valor desta transação era de algo em torno de 5 milhões de dólares. O meu chefe, Sr. Harada costumava dizer: “ John: confio 100% você”. Havia uma diferença a acertar ( problema de inflação e da projeção de índice de preços que afetava o preço dos papéis no futuro), a diferença era de uns R$ 200.000. O comprador com a cara lavada me disse ao telefone “ O João, legal meu ? Sim respondi, muito feliz por vender os papéis. Ele me disse: “Vamos (sotaque puxando o s) deixar para as castanhassss... ? ( era época de natal”). Entendi a jogada e desabafei irritado “ Cara, você vai dar até o último centavo para os japoneses daqui”, estou fora disso. Nunca mais falei com o sujeito, mas fiquei satisfeito..
Fato 4: “ Valentia e fidelidade”: esse fato foi relatado em livro do ex-prefeito de São Pedro, Lázaro Capelari (1). Diz o ex-prefeito que certa vez estava sendo perseguido pelo delegado local ( e ameaçado de prisão) por motivações políticas. Ao chegar no trabalho meu pai percebeu que as portas da prefeitura estavam meio cerradas e que seus colegas se aglomeravam ali. Ao saber do fato indagou o prefeito que relatou não haver expediente neste dia porque sua prisão era iminente. No livro o prefeito diz que meu pai tomou a frente do grupo e declarou em alta voz: “ Prefeito, pedindo desculpas ao senhor, queremos cientificá-lo de que haverá expediente sim, só sairemos daqui juntos com o senhor, seja para onde for”.. Diante da expressiva manifestação de solidariedade o delegado voltou atrás e não prendeu ninguém. Em seguida o escritor ( ex-prefeito) dizia que “Zito Aguiar era um cidadão pacato e muito educado”.
Fato 5: “Amizade e seriedade”: esse fato foi-me relatado pela esposa do prefeito ( caso acima), antes de falecer no ano passado com mais de 90 anos. Ela me dizia que gostava demais do meu pai e justificava.Um dia Zito Aguiar chegara ao seu futuro marido ( então amigo ) e disse: ‘ Meu caro, cuidado com esta moça que você está cortejando, ela é especial, trate-a com a dignidade que merece !!!”. Esse era Zito Aguiar.
Esses fatos que selecionei mostram como era a personalidade de “Zito Aguiar”, marcaram profundamente o meu caráter. Pena que poucos brasileiros têm referenciais assim, de outra forma não haveriam tantas notícias de corrupção nestes dias grassando as mais variadas instituições públicas do Brasil. Fui privilegiado. Busque você também os melhores referenciais e siga sua vida no caminho do bem !!!
(1) CAPELLARI, Lázaro. “ O Último Coronel”. Piracicaba: Degaspari Gráfica, Dezembro, 2002.