O LEGADO DOS HERÓIS
DE 1932
No período imperial ( século XIX)
o Brasil passou por uma série de conflitos externos e internos com o objetivo
de consolidar e pacificar o seu território. Estas épocas demandaram uma
completa entrega dos brasileiros, muitos cederam suas vidas pela nação; apenas
na Guerra do Paraguai, que durou vários anos fala-se em mais de 50,000 vidas. A
partir do século XX o país esteve em paz
com seus vizinhos, talvez a maior virtude do povo brasileiro, mas não foi
sempre assim, houve conflitos internos, a exemplo da Revolução de 1932, quando
bravos paulistas voluntariamente alistaram-se e doaram suas vidas e, em apenas
um trimestre, mais de 1000 se foram para sempre. De Piracicaba partiram cerca
de 800 revolucionários ( 14 faleceram), dentre estes haviam 27 de São Pedro (uma
baixa). Estas épocas produziram homens patriotas, corajosos, mas humildes e de
caráter ilibado, traços forjados no calor das batalhas. Com 61 anos de vida tive a honra de conviver com
três destes bravos que deixaram suas
famílias para defender a democracia brasileira lutando contra tropas federais a
mando de Getúlio Vargas. É sobre eles que deixo estas poucas palavras. Dois
deles eram da família Moraes Carvalho ( Piracicaba), tios de minha esposa,
convivi ocasionalmente com eles durante
5 a 10 anos. O terceiro era meu pai, Sebastião de Azevedo Aguiar (“Zito
Aguiar”), o qual perdi com 21 anos. Os três possuíam algumas características
comuns: a) educados e atenciosos, gostavam de uma conversa inteligente,
valorizavam o tempo e seus amigos; b) possuíam um caráter reto, incorruptível;
c) ostentavam um porte elegante, altivo, mas solidários e humildes de coração;
d) Eram avesso a vícios e responsáveis chefes de família e e)
acima de tudo, os três eram tementes a Deus. Remoendo essas idéias recosto
minha cabeça no travesseiro e deixo minha mente vagar em torno desses homens e
tenho várias questões dentre as quais: a)
O que teria forjado esse caráter diferenciado ? Qual enfim era a origem
do magnetismo das suas personalidades ?. Onde está a raiz do caráter que faz um
homem como o meu pai viver por mais de 25 anos na tesouraria da Prefeitura Municipal de São Pedro, de
forma reta e irretocável ao olhos dos
seus superiores ? .Porque teria ele decidido várias vezes romper pretensas
amizades em prol da sua honra ? . Meu pai, assim como os tios de minha esposa e
a maioria, se não todos os que
defenderam com as suas vidas a pátria brasileira, sentiram o pavor do espanto
noturno, nos seus ouvidos o som do zunido das balas perdidas e enfrentaram o terror
da morte ao verem seus pares sangrar ou tombar nas trincheiras. Os
historiadores relatam que a capacidade bélica era desproporcional em favor das
tropas federais, daí tantas mortes nas fileiras paulistas em tão pouco tempo (
apenas três meses). Partiram como jovens, corajosos, alinhados, saudáveis, garbosos
e certos da vitória. Voltaram homens, com ferimentos na alma e no corpo, desapontados
pela derrota nas batalhas. Chegaram cabisbaixos mas foram surpreendidos ao
serem recebidos com salvas, pois voltaram carregando o estandarte da liberdade democrática. Foram reconhecidos
como heróis pois defenderam e conseguiram direitos constitucionais que desde
então têm assegurado a democracia nesta nação. Estes pagaram o preço com
suas vidas pelo Brasil, uma terra de paz
e abençoada por imensas riquezas
naturais. Diante do pavor das batalhas aprenderam a temer a Deus e a defender a
paz entre os homens. Foi um ato cívico de grande envergadura, um dos mais
significativos ocorridos no Brasil, mas 80 anos já se foram, já não ecoam como
antes nos corações, seu valor vai esmorecendo no tempo. Nós que tivemos o
privilégio de compreender esses valores patrióticos às vezes sentimo-nos
inconformados em face de notícias negativas da imprensa a respeito do comportamento
de alguns líderes políticos. Alguns até ironizam dizendo que Deus teria
abençoado demais esta terra, esquecendo-se do povo. Não é verdade, a palavra de
Deus assegura o seu amor incondicional pela humanidade. Há esperança sim desde
que possamos sempre relembrar e honrar esses que em tantas guerras e batalhas ofereceram
suas vidas pelo preço da defesa dessa nação. Há esperança sim desde que
ensinemos aos nossos filhos os feitos dos heróis nacionais de tantas lutas,
assim como as conquistas dos revolucionários de 1932, neste 09 de Julho comemorando 80 anos de idade, pois dos seus
melhores valores repassados aos nossos descendentes serão edificados o caráter
e o patriotismo dos jovens brasileiros do amanhã.
João Francisco de Aguiar, Dr. em Administração
de Empresas, nascido em São Pedro, é
professor universitário.
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